
Fase é essencial para a construção das competências cognitivas, emocionais, sociais e motoras das crianças, além de ter impactos a longo prazo, contribuindo para a saúde e o bem-estar na vida adulta
A primeira infância, que vai do nascimento até os seis anos de idade, é um período-chave para o desenvolvimento das crianças. É nessa fase que 90% das conexões cerebrais são formadas, e os estímulos recebidos contribuem diretamente para a formação de competências futuras.
Para que as crianças alcancem todo o seu potencial, a Educação Infantil tem um papel fundamental. “Cada vez mais, compreende-se que essa etapa do ensino não deve ser reduzida a um espaço assistencialista ou a um treinamento para o ensino formal, mas sim uma fase única da vida da criança, na qual ela precisa ser acolhida em sua integralidade” diz Ana Paula Piti Azevedo, coordenadora de projetos do Colégio Rio Branco.
Ela lembra que a Educação Infantil é um direito da criança, e que pesquisas mais recentes têm demonstrado que essa etapa tem impactos a longo prazo, influenciando o desenvolvimento cognitivo, emocional e social, além de contribuir para a saúde e o bem-estar na vida adulta. “Alguns estudos, como os do economista James Heckman (Prêmio Nobel), também demonstram que investir na Educação Infantil reduz desigualdades e promove benefícios sociais duradouros.”
No entanto, seu valor não está apenas nos resultados futuros, mas na vivência plena da infância. “As pedagogias contemporâneas reconhecem a criança como um sujeito ativo, que constrói conhecimento a partir da interação com o mundo. Isso significa que a Educação Infantil deve proporcionar experiências significativas, que respeitem o tempo e os interesses das crianças, oferecendo um ambiente de investigação, brincadeira e expressão”, ressalta.
Importância do desenvolvimento integral
Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), as aprendizagens nessa fase devem garantir às crianças o direito de conviver, brincar, participar, explorar e expressar e conhecer-se, assegurando o seu desenvolvimento integral, ou seja, nas dimensões cognitiva, emocional, social e motora.
Ana Paula explica que, no aspecto motor, a exploração do espaço e das interações possibilita um desenvolvimento físico adequado, respeitando seu tempo e seu ritmo. “O movimento é uma linguagem essencial na infância. A exploração do espaço, as brincadeiras ao ar livre, o contato com diferentes materiais e os desafios motores são fundamentais para o desenvolvimento físico e para a coordenação da criança.”
Já por meio da exploração, da brincadeira e da interação com materiais diversos, as crianças constroem hipóteses, testam ideias e desenvolvem sua capacidade de investigação e raciocínio. “A observação da natureza, o contato com a linguagem oral e escrita e o estímulo ao pensamento matemático fazem parte da dimensão cognitiva”, exemplifica.
Do ponto de vista emocional, um ambiente afetivo e acolhedor permite que a criança reconheça e expresse suas emoções, desenvolvendo a autoconfiança e a capacidade de lidar com desafios. “O vínculo seguro com educadores e colegas favorece essa construção”, salienta a coordenadora.
“Socialmente, na interação com outras crianças e adultos, a criança aprende a se comunicar, a negociar e resolver conflitos e a compreender diferentes perspectivas, construindo sua identidade e o senso de pertencimento”, completa.
Direitos de aprendizagem e desenvolvimento
Na Educação Infantil, é essencial que a criança tenha o direito de brincar, interagir, se expressar, experimentar e ser ouvida, como previsto na BNCC. Para isso, segundo Ana Paula, a escola deve proporcionar um ambiente que favoreça:
- A exploração do mundo ao seu redor, com experiências concretas, contato com a natureza, investigação de fenômenos científicos e observação de elementos culturais.
- O brincar livre e espontâneo, reconhecendo-o como a principal forma de aprendizagem na infância.
- A expressão por múltiplas linguagens, como desenho, música, dança, teatro e brincadeiras simbólicas, ampliando suas formas de comunicação.
- A convivência e a construção de vínculos, estimulando a colaboração, a escuta ativa e o respeito às diferenças.
- A participação ativa no próprio aprendizado, permitindo que a criança tome decisões e tenha voz no processo educativo.
A coordenadora reforça que esses estímulos devem ser vistos como experiências que respeitam o modo como a criança aprende e constrói sentido para o mundo. “Ambientes que valorizam a curiosidade, o protagonismo e a investigação contribuem para que a criança desenvolva autonomia, criatividade e pensamento crítico, moldando seu futuro como sujeito participativo na sociedade.”
O papel das famílias
As famílias também podem acompanhar o trabalho da escola ao observar se a instituição valoriza a participação da criança no processo educativo, oferece um ambiente afetivo e investigativo e respeita o tempo e a forma de expressão infantil.
“É importante perceber se há escuta ativa das crianças, se o brincar é reconhecido como central na aprendizagem e se a socialização é incentivada de maneira respeitosa”, orienta Ana Paula. “Além disso, a transparência na comunicação, a documentação das experiências das crianças e a coerência entre o discurso pedagógico e a prática cotidiana são indicativos de um trabalho de qualidade.”
Os pais podem perguntar também à escola quais princípios pedagógicos guiam seu trabalho e como esses princípios se traduzem na prática.
Em casa, eles podem contribuir para o desenvolvimento integral das crianças criando um ambiente que respeite a infância e sem pressões antecipadas para aprendizagens formais. Isso significa oferecer tempo para o brincar, incentivar a curiosidade e a exploração do mundo, valorizar a escuta das crianças e possibilitar interações afetivas e significativas.
“Além disso, é essencial que a família compreenda que o desenvolvimento não se dá de maneira linear e acadêmica, mas sim por meio de experiências concretas, emocionais e sociais, permitindo que a criança se expresse livremente e construa seu conhecimento de maneira ativa”, afirma a educadora.
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